Este espaço reúne as críticas escritas pelos participantes da oficina Crítica em Cinema, ministrada por Luiz Joaquim durante o 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
Ao longo de quatro encontros — três on-line e um presencial, no Auditório do Cine Brasília —, cerca de 9 participantes assistiram aos filmes em cartaz no Festival e enfrentaram, na prática, o desafio de transformar a experiência da sala escura em texto: encontrar as palavras, sustentar um ponto de vista, assumir a responsabilidade de escrever sobre o trabalho de outra pessoa.
O que se lê aqui são esses primeiros textos. Críticas de quem está começando, escritas no calor do Festival, sobre os filmes que passaram por estas telas. Publicá-las é uma forma de dizer que a formação não termina quando a oficina acaba — e que a crítica, para existir, precisa de leitores.
Boa leitura.
“Ana, en passant”, longa de estreia da realizadora mineira Fernanda Salgado, abre a mostra competitiva de longas do 59⁰ Festival de Brasília do Cinema Brasileiro numa bela sessão conectada por memória e ancestralidade.
Um diálogo delicado entre uma menina e uma mulher abre o filme. Elas conversam sobre o que são mapas e as formas que um mapa pode assumir. A conversa, arrematada pela promessa de uma busca incondicional, antecipa a narrativa na qual entraremos a seguir: a viagem de Ana, uma jovem que deixa Paris após a morte da avó, rumo ao Brasil, tendo em mãos uma carta e chaves de um apartamento, deixados pela avó.
Com direção de animação de Camila Kater (diretora de “Carne”, premiada animação que entrou na shortlist do Oscar em 2021), o longa trabalha com um interessante cruzamento de linguagens visuais. Enquanto as personagens mantêm uma constância gráfica identitária, o mundo de passagem de Ana oscila entre o traço animado e matéria real. Ana, mulher negra, quer entender quem ela é num mundo que raramente acolhe seu corpo e suas memórias. Desenhos, texturas e fotos compõe o universo mineiro que descobrimos com ela, com paredes feitas de envelopes, cartas escritas à mão e selos postais. Um universo que, por vezes, se rasga e revela as estrias e a textura crua de uma caixa de papelão sob a imagem, e, por vezes, nos apresenta fotografias documentais reais revelando o lastro biográfico sobre a fabulação, como na visita ao quintal da bisavó, momento mais bonito dessa busca.
É um belo filme sobre quando se pensa estar de passagem, mas as forças da ancestralidade nos fazem ficar e criar raízes.
Leia esse texto com um sentimento muito específico: aquele de ser acordado numa manhã fresca, por uma voz suave, de temperatura certa, como ser abraçado pelo cobertor perfeito perto da hora de acordar. Uma voz maternal com um convite para conhecer o dia e saborear a presença e os mapas que ela cria.
Não à toa, Ana, en passant é uma homenagem de uma mãe para uma filha e conta a história de Ana, uma mulher negra solitária que cresceu na França e, após a morte da avó, recebe pistas que abrem os seus caminhos para Belo Horizonte e para o passado de uma família que ela nunca conheceu, mas sempre esteve ali.
A trilha estética que conduz o longa-metragem se sustenta na animação, uma mistura de rotoscopia com colagem que mantém quem assiste constantemente atento visualmente, imerso em um realismo mágico que acalanta e mantém o ritmo da narrativa. Os rasgos e amassados da colagem escolhidos para dar cenário ao filme entendem seu papel como um fio condutor dentro de um conjunto, e não como uma ferramenta independente.
Ana recebe da Avó a oportunidade de conhecer Alice, uma mulher negra e gestante, que passa pelo processo de entender a própria pele e a nova identidade que a maternidade propõe. Cada uma ao seu modo e tendo Belo Horizonte como catalisador, buscam formas de criar identidade e pertencimento, investigando nas encruzilhadas de uma cidade em movimento, o que se esconde debaixo da terra e dentro de si.
O filme tem dentro da sua estrutura narrativa um vício de linguagem que distancia o espectador desatento, a maioria dos acontecimentos são explicados de forma expositiva antes que aconteçam: antes do rio, se fala do rio. Algo que, no conjunto da obra, não causa grande inquietação, pois ao ver o dito rio, o espectador é conduzido a um mundo fantástico onde tudo é possível.
Ana, en passant deixa o público com a memória de um sentimento distante, de uma voz calorosa, ou um colo que convida ao dia quando ainda estamos descobrindo o mundo. As lembranças vagas das pessoas que ficaram para trás, mas deixaram mapas com os quais caminhamos o curso de uma vida em constante construção. Mapas e caminhos que um dia foram tão familiares, mas inevitavelmente se tornam rios sob terra, prontos para nutrir os jardins que compõem nossa jornada.
Sem folha, não há orixá: “Mariposa” escolhe abrir justamente com imagens do preparo de um banho de folhas, a partir do qual o curta vai explorando gradualmente a evidente relação de simbiose que a espiritualidade das religiões afro-brasileiras têm com a natureza ao seu redor. Nas dunas da praia de Santa Rita, em Extremoz (RN), onde o curta foi gravado, belas paisagens em preto-e-branco se desvelam em planos abertos que, frequentemente, posicionam o elemento humano no canto do quadro, mostrando como a natureza se impõe frente ao mundo.
O curta de Alexandre Américo e Pedro Vitor nega uma narrativa tradicional e segue pelo caminho da exploração sensorial para refletir sobre espiritualidade e ancestralidade. Vemos imagens de uma mãe de santo em meio ao seu banho de ervas, preparos e orações, bem como um homem (ou divindade?) que parece buscar impor sua vontade contra algo ou alguém.
Entre eles, a montagem contrapõe planos mais fechados de água, fogo, terra e ar, tensionando as imagens e os elementos entre si em uma aparente disputa. Em certos momentos, isso se reflete ainda mais por imagens sobrepostas em dupla exposição na tela, acentuando a noção de conflito. Trechos de uma dança se sobrepõem com as ações do homem, por exemplo, criando uma relação meio que de causa e efeito. A montagem toda parece fluir nesse movimento, às vezes quase como uma videodança. E faz sentido, uma vez que disputas e tensões estão frequentemente na base dos itãs, as narrativas sagradas das religiões afro que contam os feitos de orixás e a cosmologia do mundo ao redor.
Para além da fotografia e da montagem, os diretores encontram no belo trabalho de desenho de som mais uma forma de ecoar essa tensão latente e o mistério. Em outro momento, por exemplo, escutamos a natureza falar de volta à sacerdotisa, mas não sabemos exatamente o quê, dado o aspecto metálico e distorcido que essa voz ganha.
Afinal, “Mariposa” não parece mesmo querer revelar nada explicitamente ao espectador: muitas vezes, ancestralidade e espiritualidade são mistérios, e, por isso, o curta prefere investir na experiência sensória que esses segredos trazem.
Com frequência o cinema se torna lugar de elaboração dos nossos próprios sentimentos, sejam eles ausências, lutos, memórias, saudades. “Vejo Você de Repente” é uma dessas obras que partem de um lugar bem íntimo e particular: em uma espécie de mistura de documentário com videoarte, a diretora Aída da Costa explora a ausência do seu pai, quase três décadas depois da sua partida repentina.
A lembrança mais imediata de referência é, claro, o recente “Aftersun”, em que Charlotte Wells também elabora sobre a perda do pai. Aqui, porém, Aída não faz isso como ficção, e sim de um ponto de vista completamente pessoal. O tom biográfico está posto desde o começo do curta: em primeira pessoa, Aída reconta em uma narração em off uma das memórias que tem do pai.
Essas memórias ganham um caráter de experimentação audiovisual ao longo de todo o curta: à medida que Aída vai relembrando histórias ou refletindo sobre as lacunas que o pai deixou em sua vida, as lembranças ganham diferentes formas. Às vezes, são animações em rabiscos por cima de imagens da casa da família e da praia que visitaram na infância. Em outros momentos, são fotos antigas que ocupam a tela, ou desenhos em forma de colagem. As lembranças também vão aos poucos tomando a forma de metáforas visuais – a mais presente é a imagem do peixe, que surge em fotos, vídeos e desenhos, sempre como a figura que entrou nas águas e não mais voltou.
“Vejo Você de Repente” é a tentativa autoconsciente de Aída de alcançar esse peixe que escorrega pelas mãos. A certa altura, a diretora encontra um registro em vídeo do pai que ela não sabia que existia e opta por incluir isso no curta e compartilhar com o público. Logo, mostra que não há negação do papel do dispositivo audiovisual nessa narrativa que se torna um processo de autodescoberta e resgate de memórias. Pessoalmente, acredito que é um ato de coragem partilhar e elaborar algo tão íntimo por meio da experiência coletiva do cinema.
Ao retomar a investigação sobre o desejo, a memória e o território goiano, marcas de sua trajetória em obras como Paulistas e Mr. Leather, o cineasta Daniel Nolasco constrói em Pequenas tragédias um retrato fortemente ligado à sua própria história e ao seu entorno geográfico. Para além de um relato confessional ou autobiográfico, o filme cruza a linguagem documental (como as falas direcionadas à câmera, o tom de conversa franca e o resgate da memória dos afetos) com a ficção para expor como as diferentes formas de violência cotidiana enfrentadas por pessoas LGBTQIA+ ganham contornos específicos no interior do país. A força do trabalho está justamente em não paralisar seus personagens na dor: a opressão de um meio conservador, atitude presente em diversos cantos, mas com dinâmica própria na província, é o tempo todo desarmada por um humor ácido e pela potência dos encontros afetivos.
Ao conduzir o olhar documental para além do meramente expositivo, a obra recusa a armadilha de limitar as existências retratadas à condição de vítimas. Essa escolha conecta-se diretamente com a promessa do título, Pequenas tragédias: o filme não se curva à gravidade dessas “tragédias”, fazendo da narrativa um espaço de constante enfrentamento. Sustenta-se, assim, a tese de que a crítica social do filme não se ergue pela passividade do trágico, mas pelo embate constante entre a hostilidade do ambiente e a força de resistência dos seus personagens.
Esse atrito entre a geografia local e os afetos ganha corpo no modo como o filme mapeia Catalão, especialmente em seus cantos mais esquecidos. Um exemplo claro dessa escolha é a cena do encontro entre dois homens em um banheiro público: um lugar marcado pelo abandono e por uma arquitetura isolada. No entanto, a direção recusa a vitimização e transforma a forma de olhar para aquele espaço degradado. Com a escolha dos enquadramentos e o ritmo certo dos corpos, o cenário insalubre vira um território de pura potência sensual. O lugar feito para ocultar torna-se, pela câmera do filme, um espaço de afirmação do desejo.
Outro momento de incontestável potência do filme ocorre na introdução da personagem Monalisa. A entrada dessa figura muda o tom do filme e coloca o público diante de memórias de resistência que costumam ser invisibilizadas no cinema comercial. Longe de reduzi-la a um estereótipo marginal, a direção confere à sua história um lugar de profunda dignidade e escuta. Essa inserção expande o alcance humano da obra ao trabalhar os limites da percepção do espectador, convocando um exercício de genuína empatia diante de um cotidiano marcado pelas asperezas do tempo e pelas cicatrizes de uma vida à margem.
A espacialidade e a direção de arte constroem essa atmosfera de tensão e desejo, mas é na elaboração dos diálogos e principalmente da narração que a veia de humor ácido se consolida. Longe de cair no tom panfletário, o longa usa a ironia e o deboche como estratégias de defesa e inteligência. Os personagens, atravessados por um tom melodramático consciente de si, contrapõem a gravidade do preconceito a uma inteligência rápida, impedindo que a narrativa resvale para o tom pedagógico. Esse humor, ora sutil, ora cortante, atua como o verdadeiro catalisador da obra: ele desarma a dor e devolve aos personagens a contradição, a leveza e a humanidade que as opressões tentam subtrair.
Em última análise, Pequenas tragédias reafirma a maturidade da trajetória de Daniel Nolasco ao converter a geografia de Catalão em um vibrante laboratório estético e político. Ao recusar a vitimização e apostar no choque contínuo entre a hostilidade do ambiente e a exuberância do afeto, a obra deixa uma reflexão duradoura sobre o que é resistir hoje. A potência do filme não reside na mera denúncia da violência local, mas na capacidade de inventar frestas de prazer, romantismo e fabulação em que o meio insiste em interditar o corpo. Conclui-se, assim, uma obra que não se entrega como um inventário de derrotas, mas se afirma como um manifesto vivo, irônico e profundamente humano sobre o direito de existir e desejar.
A experimentação é sempre um risco. No cinema, exige, além de ousadia, uma equipe disposta a até perder dinheiro em nome do prazer de ver uma ideia ganhar forma. Afinal, pode dar certo, mas pode dar muito errado.
Gastronomia do olho, um dos 12 curtas da mostra competitiva do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, ousou. Com baixíssimo orçamento e sem financiamento de apoio, foi gravado em película 16 mm, sem roteiro, sem ensaio, para “tentar entender se essa proposta funciona”, como assumiu o roteirista, diretor e produtor, Nicolau.
Mesmo sendo representante do Distrito Federal na mostra, o curta é uma ode ao bairro do Bixiga, em São Paulo. O documentário-ficcional tem cerca de 10 minutos e acompanha dois atores a caminho do Teatro Oficina. Eles fazem parte da mesma companhia e estão ensaiando Os sete gatinhos, peça de Nelson Rodrigues. É durante um pequeno trajeto percorrido por eles a pé que o filme se desenvolve.
Entre conversas reais e o texto rodriguiano, o curta passeia pelas ruas do bairro paulistano de forma bastante despretensiosa e experimenta também na montagem. Insere trechos de outros filmes, com outras texturas, outras épocas da mesma São Paulo. Em comum, a arte em diferentes linguagens, que de alguma forma permeia esses diferentes momentos e aparece como um amálgama para unir partes que parecem desconexas.
O título do curta precisou de explicação. Na sessão de debate sobre o filme, Nicolau afirmou se tratar de uma citação direta do escritor francês Balzac, que definiu o ato de flanar por Paris como uma gastronomia dos olhos. A alusão foi a mesma, mas às ruas de São Paulo.
É sabido que o cinema experimental rompe com o conforto da estrutura tradicional e provoca o espectador a ir, por conta própria, em busca de sentidos para a narrativa proposta. Mas, Gastronomia do olho dá poucas pistas e exige um repertório elevado de quem só assiste. Parece mesmo um filme feito para quem faz cinema. Uma experimentação que abarca as intenções de quem filma.
Em uma mistura de gêneros e tons diferentes para contar uma narrativa pessoal sobre a vivência queer, o diretor goiano Daniel Nolasco nos apresenta seu mais novo longa-metragem: Pequenas tragédias. No início do filme, o narrador explica que essa história não é somente sobre Daniel, mas sobre a cidade de Catalão, Goiás, e assim, acompanhamos diversos acontecimentos sob a perspectiva de um jovem Daniel, interpretado por Guilherme Théo.
O filme é dividido em oito momentos: prólogo, cinco atos, entre ato e epílogo, cada um focando em um aspecto distinto da vivência de Daniel em Catalão. Assim, acompanhamos sua trajetória desde criança, ao descobrir o que é ser gay, até a vida adulta, depois de diversas vivências em decorrência de sua sexualidade. Essa estrutura funciona de forma muito interessante, emulando de certa forma o sentimento de ler um livro, e dá oportunidade de nos sentirmos inseridos nos espaços em que o filme se passa, e consequentemente, nos conectarmos com as pessoas que estão tendo suas histórias contadas.
Em diversos momentos do filme, o erotismo funciona como contraposição ao conservadorismo de uma cidade pequena. Vemos várias recriações de acontecimentos e personagens preconceituosos sendo interpretados através de uma linguagem erótica, que não só ironiza os comportamentos hiper-masculinos de alguns personagens, como nos oferece a oportunidade de olhar para o filme através do desejo do protagonista.
Essa linguagem, entretanto, não tira do filme sua seriedade, como Daniel nos avisa no começo do filme: essa não é uma história feliz. A violência permeia toda a narrativa de Pequenas tragédias. Observamos o sofrimento de todas essas pessoas, e com o tom profundamente pessoal do filme, sofremos muito junto delas. Torcemos pelo final feliz que essas pessoas merecem, mas somos majoritariamente respondidos com a realidade violenta em que estão inseridas.
No entanto, Daniel Nolasco vive para contar essas histórias, e não deixar essas pessoas serem esquecidas. E assim, o diretor cria um filme igualmente engraçado, divertido, trágico e emotivo, que, misturando narração e dramatização, ficção e realidade, reflete brilhantemente sobre as memórias que uma pessoa queer carrega em si.
“Sempre econômico com as palavras”, foi assim que Catapreta, diretor do filme Fundura, foi descrito pelo colega realizador na apresentação do filme para a mostra competitiva do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
E de fato, as poucas palavras se refletem nesta produção, mas são dispensáveis frente ao espetáculo cinematográfico em forma de animação criado para contar essa história.
Nesta edição do festival vemos muitas histórias relacionadas as religiões de matriz africana e suas relações com o povo negro periférico. Não poderia faltar falar sobre a proteção de uma mãe, ou no caso de Fundura, o que guarda uma caixa com formigas.
Em Fundura, um jovem trabalhador é sugado pela escuridão de um mundo hostil. Salvo por uma entidade, o garoto encontra nas mãos de uma mãe a cura necessária para abrir seus caminhos. Quando o espaço de casa e cura deixam de ser suficientes para um filho, ele se lança ao mundo e com ele, vai um pedaço do que o protege.
Uma animação de tirar o fôlego, que brinca com a distribuição de uma paleta de cores que dá destaque a cenários, personagens ou objetos de acordo com a necessidade de amplificar o momento narrativo. A paisagem sonora não permite que seu espectador se distraia, com graves intensos de tensionamento, mas principalmente, ausência de silêncios. Se não o conforto do som de pássaros quando o personagem é cuidado, o estridente barulho de uma cidade sempre em movimento.
Um momento de grande impacto é a revelação de seu antagonista, que escancara a vontade de explorar tensões raciais no curta-metragem. Quando o garoto, agora um homem, entra na mira de seu algoz, resta aos encantos impedir que ele amanheça com formigas na boca. Só não é possível dizer o mesmo sobre quem o caçou.
Catapreta é, de fato, um realizador de poucas palavras, mas vale a pena acompanhar o que ele tem para dizer.
A animação Fundura, de Catapreta, abriu a sessão do terceiro dia da mostra competitiva do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Catapreta já havia participado do festival com o excelente Dona Beatriz Ñsîmba Vita, em 2023, recebendo o prêmio de melhor roteiro.
Fundura é uma fábula de horror social onde acompanhamos um garoto que, salvo de um buraco de fundura, é acolhido e costurado pelas mãos de uma matriarca em uma casa de cura repleta de muletas e ex-votos. Mas ele decide fugir desse abrigo sagrado carregando consigo apenas uma caixa. Ele é agora um corpo fragmentado, condenado a carregar as marcas da violência histórica para a vida adulta, onde passa a trabalhar como segurança de um clube noturno, sintoma da precarização e exposição contínua de corpos pretos na linha de frente da vigilância urbana.
O curta impressiona pelo rigor estético. A técnica de animação manual de Catapreta ganha dimensão com o excelente trabalho de desenho de som, que constrói uma atmosfera de tensão constante, nos colocando num estado de absoluta presença.
A fundura diz respeito à vala de onde o garoto emergiu, à profundeza das marcas coloniais que carrega na pele e ao abismo de uma tentativa final de retorno à caixa. Mas não tem como retornar intacto ao refúgio primordial depois de ter sido empurrado pro mundo.
O curta-metragem goiano Cidão, dirigido por Alessandra Gama, tem como ponto de partida uma ferida histórica e familiar incontornável: o assassinato de seu pai, no dia 1º de maio de 1981, quando saiu de casa para comemorar o feriado do dia do trabalhador.
O filme, que se utiliza do saturado recurso da diretora-narradora em primeira pessoa, se estrutura a partir da urgência em tocar nessa ausência e entender as circunstâncias de uma morte violenta que atravessou décadas sem resolução plena. Nesse resgate, a diretora tem em mãos um material de densa carga afetiva, reunindo relatos de familiares, fotografias e notícias de jornais, mas que por vezes se dispersa em soluções formais típicas de um filme de formação. Essa contundência material, porém, ganha respiro nas sequências de uma mesa de oferenda que cruzam o filme, criando rituais de afeto e memória que apontam pra uma elaboração mais poética da perda.
Ao final, a dor real e a denúncia daquele 1º de maio permanecem gravadas na memória do público sobretudo pela matéria bruta do arquivo, a carteira de trabalho do pai, manchada de sangue, que atravessa o filme.
A ideia gira em torno de quatro personagens que não se conhecem, têm condições de vida diferentes e candidatos diferentes, mas que votam no mesmo lugar no Rio de Janeiro. O filme começa acompanhando essas pessoas na primeira eleição de Lula, em 2002, e, a partir daí, passa a registrar suas vidas ao longo de vinte anos.
Já é muito instigante acompanhar essas pessoas, entender suas vidas, dificuldades, gostos, famílias, trabalhos e por que decidiram votar em seus candidatos. Essa retomada a cada ano torna cada personagem único e faz com que se crie um certo carinho e entendimento por cada um deles.
A sequência em que eles se encontram pela primeira vez, depois de quatro anos, é espetacular e mostra como essas diferentes vidas podem se cruzar. Mas o que torna essa experiência ainda mais interessante é a retomada em 2022, na terceira eleição de Lula. É muito interessante ver a evolução desses indivíduos, perceber como mudaram de opinião, de trabalho e como se tornaram pessoas muito diferentes, mas ainda preservam características que os tornam os mesmos personagens. Parece contraditório, mas o filme consegue mostrar isso muito bem.
Também é interessante acompanhar a evolução do mundo ao redor deles: a moda, a tecnologia, os costumes e os próprios pensamentos. É como entrar em uma máquina do tempo e observar não apenas essas pessoas envelhecendo, mas também o país se transformando junto com elas.
Tudo é Tempo é um documentário leve, alegre e provocador, que o tempo inteiro expõe as contradições de cada personagem. A política está presente, mas acaba servindo também como um ponto de partida para observar algo maior: como vinte anos podem transformar completamente a vida de uma pessoa sem necessariamente apagar quem ela era.
Dirigido e escrito por Daniel Rone e Guilherme Xavier Ribeiro, Cana nos intriga desde o primeiro momento do filme. O espectador é colocado em um mundo de hostilidade e injustiça onde nunca se sabe o que pode acontecer em seguida, e assim, acompanhamos nossos protagonistas em um filme marcado por tensão e medo.
Tensão, especificamente, é o sentimento que de fato melhor descreve o curta. Tudo parece ameaçar os protagonistas de formas diferentes e somos colocados constantemente em um lugar de desconfiança de tudo ao nosso redor. Dessa forma, como audiência, somos levados a questionar em quem e no que podemos confiar nossa existência política e no quão próximas estão as ameaças institucionais às pessoas pretas.
Com atuações sólidas, direção inteligente e linguagem visual marcante, Cana consegue se destacar e ser lembrado entre dezenas de outros filmes que são exibidos em um festival de cinema, desafiando o espectador e deixando muito a se pensar após ser assistido.
Com uma premissa enigmática e linguagem visual ambiciosa, Descarrilho aposta no surrealismo e em uma narrativa não-convencional para analisar a culpa. No curta-metragem de Aline Gutierres, Renata (Jéssica Teixeira) vive em um lugar misterioso, nunca explicado, que aparenta estar fora da realidade, onde é atormentada por sonhos envolvendo uma outra personagem que, presumidamente, sofreu algo por conta da protagonista.
Nem todo filme precisa ter um significado. Inclusive, ter mais perguntas que respostas muitas vezes é o que faz um filme ser muito bom. No caso de Descarrilho, entretanto, os elementos do filme parecem não construir uma ideia, mas sim flutuar pelo curta sem muita direção, e isso se torna frustrante por ser possível encontrar méritos nas atuações e direção do filme, mas que infelizmente são prejudicadas por um roteiro que não parece dizer muita coisa.
Então, Descarrilho acaba deixando um sentimento de tristeza pelo que poderia ter sido, mas também de vontade de ver o que a diretora pode alcançar trabalhando com uma obra mais coesa.
Imaginar um Brasil onde o grupo da extrema-direita triunfou no intento do golpe de Estado e saiu vitorioso depois de invadir os prédios que simbolizam os três Poderes, em Brasília, no fatídico 8 de janeiro de 2023. Um cenário distópico (ainda que não distante) de violência e autoritarismo, batizado com o nome de uma música de amor de Chico Buarque. Parece uma dicotomia, mas, pelo título, Todo o sentimento confirma o cinema de afeto de Glenda Nicácio e Ary Rosa.
O longa é o oitavo filme que os dois produzem juntos. Na filmografia, Ilha (2018) precisa ser destacado – é a partir dele que Todo o sentimento acontece. O roteiro traz uma espécie de spin-off, mostrando como o regime opressor atingiu a vida do cineasta Henrique, um dos protagonistas do filme anterior. O ator Aldri Anunciação volta para interpretar o diretor de cinema, oito anos mais velho.
Não é preciso ter visto Ilha para compreender o novo filme. O roteiro de Ary não é nenhuma continuação que gera prejuízos para quem perdeu a primeira parte. Mas, quem assistiu consegue perceber referências, inclusive nos diálogos com Gustavo (Lucas Leto), que aparece na nova trama para compor a história, formando o casal que simboliza a resistência. Do outro lado, o da opressão, uma caricatura de pastores, jornalistas e políticos que lideram o que se tornou a teocracia brasileira.
No filme, a interação entre os dois mundos é fria, se dá apenas por meio da televisão. Programas histriônicos e sensacionalistas, sempre um tom acima, evidenciando o que seria absurdo, se não fosse tão factível nos tempos em que vivemos. Há ainda uma diferença estética: mudam as cores e as texturas para denotar o abismo entre as duas realidades.
Para quem assiste, o terror de imaginar um cenário distópico que sai das telas e se torna real – já que discursos muitos semelhantes permeiam nossa sociedade nos dias de hoje – acaba sendo suplantado pela esperança que Todo o sentimento deposita no amor, no cuidado e no desejo. Henrique e Gustavo decidem viver esses sentimentos da maneira possível, isolados e na clandestinidade, a despeito da perseguição, do medo e das consequências concretas impostas pelo regime teocrático.
A alegoria usada para representar uma dessas consequências é o cerne do filme – e também a parte mais sensível a críticas. Henrique se tornou uma pessoa com deficiência. E aqui cabe refletir sobre a visão capacitista que enxerga a cadeira de rodas como uma punição. No entanto, é preciso considerar também que, ao contrário do que queriam os persecutores de Henrique, ser cadeirante não acabou com ele. Se algumas representações foram problemáticas, e foram, o personagem como um todo é um homem autônomo, independente, que vive sozinho por escolha até a chegada de Gustavo; e que encerra a jornada provocando desejos, conduzindo a si mesmo, literal e metaforicamente. Parafraseando Chico na música que nomeia o filme, num “tempo que refaz o que desfez, que recolhe todo o sentimento e bota no corpo uma outra vez”.
Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner estreiam Privadas de suas vidas no 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, antes de partir para o Festival do Rio e após passarem por festivais como IFRR e Fantasia. O filme é um horror escatológico que já mostra a que veio logo no prólogo, chocando de imediato os desavisados que entraram no cinema sem saber do que se tratava.
Numa paródia à comédia de costumes, a narrativa se ambienta em um edifício no centro de São Paulo para acompanhar uma mulher em luto, que psicossomatiza o trauma na incapacidade de fazer cocô. O trama parte da premissa absurda de que os sanitários desse edifício se rebelam com violência assassina, transformando uma celebração familiar de vizinhos em um massacre sangrento. Esse atrito doméstico e a hipocrisia das relações de condomínio servem de estopim para os realizadores liberarem um humor ácido, onde a convenção social é engolida pela podridão dos canos. Metáfora que se expande na figura da jovem que faz leitura de fezes e secreções. Se cada um tem a sua própria privada, cada um também retém e recusa processar os próprios dejetos emocionais.
Se a aposta estética caminha no limite do grotesco, o elenco garante a excelência do filme. Martha Nowill, Otávio Müller, Olívia Torres, Chandelly Braz, Marco Pigossi, Regina Braga, Maria Gladys, Caetano Gotardo e Benjamín Damini compram a bizarrice sem hesitar, transformando cada embate e explosão corporal em momentos de puro descarrego cênico.
Ainda assim, o mergulho irrestrito no horror escatológico cobra seu preço. O exagero visual, as secreções e o gore escrachado colocam a sensibilidade do público à prova o tempo todo. Para além das leituras sobre trauma familiar, aceitação e hipocrisia de classe, Privadas de suas vidas é uma experiência feita para testar limites, e não é recomendada para quem tem estômago fraco.
Uma mulher sentada na privada, em plano médio, fazendo cocô. Corta para o close no resultado, dentro do vaso. Essa é a cena de abertura de Privadas de suas vidas – honesto com o espectador desde o princípio. O filme de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner é um terror de objetos assassinos, com muita escatologia e sangue na tela, no clássico estilo gore. Mas, não é só isso.
Como bem sugere o nome, as privadas são o elemento central do longa. Tudo começa quando Malu (Martha Nowill), uma mãe solo, produtora de festas, perde um dos filhos gêmeos, ainda criança, em um acidente trágico no vaso sanitário. Até aí, não há, ainda, nenhum elemento do universo fantástico – foi um acidente horrível, mas real. Uma tragédia que pode, de fato, acontecer. E isso choca muito mais.
A partir de então, acompanhar a trajetória dessa mãe se torna imprescindível – é o que o prende a atenção mesmo de quem é menos afeito ao gênero do filme.
Anos se passam. O corte temporal se dá com Malu novamente no banheiro, mas dessa vez não em uma privada. Desde a morte do filho, ela nunca mais conseguiu sentar num vaso sanitário e sofre de constipação crônica – uma alegoria certeira pro luto mal digerido.
E esse não é o único drama materno de Malu. Ela também vive às voltas com Gênesis (Benjamin Damini), pessoa adolescente não-binária que exige o reconhecimento de sua identidade pela mãe. A densidade dessa trama e a performance de Martha e Benjamin dominam a tela na primeira metade do filme. Fica fácil apenas fechar os olhos ou abaixar a cabeça para não ter que lidar com as cenas de vômito, catarro e fezes que salpicam vez ou outra diante dos olhos.
Mas, para agradar os fãs da escatologia clássica e das representações gráficas de vísceras e dejetos, na segunda metade do longa, temos, literalmente, uma enxurrada disso tudo. As privadas do condomínio onde Malu vive em São Paulo ganham vida, se tornam assassinas e vão levando embora os vizinhos de forma tragicômica – umas mais trágicas que outras, mas todas constrangedoras e igualmente nojentas.
Nesse ponto, o problema não é do filme, e sim de quem não gosta desse tipo de terror. A produção é muito bem feita. Os efeitos visuais são de qualidade, não é um filme amador. Ao contrário, o longa foi produzido pela RT Features, mesma produtora de Ainda estou aqui.
Na sessão de debate sobre o filme, realizada nesta quinta-feira (17) em Brasília, a representante da empresa que estava presente foi perguntada sobre o orçamento de Privadas de suas vidas. Fernanda Frotte limitou-se a dizer que “não chegou a R$ 5 milhões”. Tentou tirar o peso do investimento, mas o valor é pelo menos o dobro que filmes independentes de médio porte, do mesmo gênero, conseguem com algum tipo de incentivo. A aposta foi alta.
Privadas de suas vidas está longe de ser um filme agradável, e nem é esse o objetivo. Mas, a premissa, as atuações e acompanhar a construção complexa das personagens centrais fazem valer as quase duas horas do longa – ainda que com algum (muito) desconforto.