“Uma década sem Adrian Cowell” por Felipe Milanez

Mostras homenageiam documentarista inglês que filmou por 50 anos as lutas e a destruição da Amazônia

Adrian Cowell (1934-2011), britânico nascido em Tongshan, na China, esteve no Brasil pela primeira vez em 1957 como parte de uma expedição que cruzaria o continente, de Roraima à Terra do Fogo, mas parou no Brasil Central, no Xingu, e desde então construiu uma história de paixão e dedicação com a natureza, os povos indígenas e em especial, com a Amazônia. Filmou por 50 anos a região, a beleza natural, das culturas dos povos da floresta, e a violência e destruição, produzindo filmes para canais britânicos (BBC e Canal 4), que circularam por dezenas de países, espalhando e amplificando as vozes oprimidas. Sua principal obra foi A Década da Destruição, na qual documentou, com o cinegrafista e co-diretor Vicente Rios, a invasão e destruição da Amazônia nos anos 1980, o contato com povos indígenas em isolamento, assassinato de ambientalistas e defensores ambientais como Chico Mendes, a construção de usinas hidrelétricas, estradas, e a chegada da grande mineração. Adrian Cowell faleceu em 10 outubro de 2011 prestes a vir ao Brasil para finalizar a versão de Matando por Terras (aqui obituário que publiquei na época)

Ainda em vida, destinou todo o material que documentou para estar no Brasil, à disposição da memória das futuras gerações, e a ser guardado e cuidado pela PUC de Goiás. Parte de sua vida também dedicou-se a documentar as lutas dos povos no sudeste Asiático, sempre ao lado dos povos que tinham suas vidas e seus territórios invadidos. Este discreto e dedicado cineasta documentarista foi homenageado no 54º Festival de Brasília de Cinema Brasileiro, com o título de “50 anos de cinema na Amazônia”, que ocorreu em dez de dezembro de 2021, e em breve uma nova mostra organizada por um coletivo de admiradores e amigos prepara uma homenagem ainda maior com uma série de mesas de debates e sessões especiais de filmes raros e fundamentais.

Adrian Cowell dirigiu dezenas de filmes, mas notabilizou-se sobretudo com sua obra-prima, a série A Década da Destruição, que acompanha o ponto de virada da invasão e destruição da Amazônia nos anos 1980. A série documenta os projetos da ditadura, os anos da transição e a emergência das lutas dos povos da floresta, o encontro de seringueiros com os povos indígenas, bem como a resistência de posseiros contra o latifúndio. Registra o genocídio de povos indígenas, como massacres contra os Uru-Eu-Wau-Wau em Rondônia, mas também as esperanças que surgiram com a redemocratização e as lutas dos movimentos sociais organizados. Foram também os anos mais violentos de conflitos no campo documentados, sobre os quais ele registrou nos filmes Matando por Terras e Chico Mendes, Eu Quero Viver. Sua trajetória incluiu a documentação de momentos históricos, como as expedições dos irmãos Villas Boas no Xingu nos anos 1960, a implantação de projetos de colonização do Incra em Rondônia na década de 1980 e a luta de Chico Mendes e o movimento dos seringueiros pela criação de reservas extrativistas no Acre. 

No ano em que se completa uma década da morte de Adrian Cowell, o cineasta e sua obra foram debatidos no Festival Brasiliense de Cinema Brasileiro (FBCB) a partir da exibição do curta-metragem documental “Visões da Floresta” (2012), produzido por Vicente Rios e Frederico Mael do Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia (IGPA) da PUC-Goiás.   Nesse evento, uma mesa, mediada por Adriana Ramos, do Instituto Socioambiental, contou com Frederico Mael, do IGPA/PUC-Goiás, Stella Penido, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Gustavo Cepolini, da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), por onde Vicente Rios, o cinegrafista e co-diretor parceiro de Cowell foi agraciado com o título de Doutor Honoris Causa, Elisabete Kimie Kitamura, da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Brent Millikan, Mestre em Geografia pela Universidade da Califórnia, ativista e pesquisador de organizações da sociedade civil, Felipe Milanez, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e Ailton Krenak, escritor, pesquisador, líder indígena, e um dos líderes da criação da Aliança dos Povos da Floresta e da União das Nações Indígenas, movimentos sociais que surgiram nos anos 1980 no contexto documentado pela série A Década da Destruição. O encontro, como definiu Krenak, foi uma espécie de Kuarup em homenagem a Cowell, em referência ao famoso ritual funerário dos povos do Xingu. 

Frederico Mael, da PUC de Goiás, inicialmente reportou o funcionamento do Núcleo de Documentação Audiovisual do IGPA, que guarda o acervo imenso dos filmes de Adrian Cowell. Cowell, Mael e Vicente Rios montaram “Visões da Floresta”, com direção, câmera e narração de Vicente Rios. O filme inicia mostrando o  processo da chegada de sete toneladas do acervo no IGPA. Cowell faleceu pouco antes da finalização deste filme, sua última obra. Ele ainda estava terminando a versão brasileira de Matando por Terras, igualmente finalizada postumamente. Eliane Brum escreveu uma belíssima resenha sobre o filme (leia aqui)

Foi Stella Penido, em 2005, que junto com Luiza Andréa Cardoso da Fiocruz, liderou um acordo de cooperação técnica com a PUC Goiás para a vinda do acervo de Adrian Cowell para o Brasil, com patrocínio da Petrobrás através da Lei Federal de Incentivo à Cultura e apoio, na época, do Ministério do Meio Ambiente, na gestão de Marina Silva. O projeto obteve apoio financeiro através de edital público, do BNDES para ações de preservação de parte do acervo.  O Projeto Histórias da Amazônia- 50 Anos de Memória Audiovisual tratou disso, além de patrocinar várias Mostras de filmes e Seminários que celebraram a vinda do acervo, antes de sua digitalização. Com a orientação de Adrian Cowell foram realizadas novas cópias e versões em português de filmes de 1960, da Década, e, por último, de Matando por Terras (2005-2011), que ficou longo tempo sem ser exibido no Brasil para não expor testemunhas de assassinatos por terras no sul do Pará. 

O geógrafo Brent Millikan relembrou a importância do trabalho realizado entre 1980 a 1990, por Adrian Cowell, Vicente Rios e equipe, quando filmaram a série “Década da Destruição” em Rondônia.Os filmes de Adrian foram muito importantes para a campanha internacional que questionou o Banco Mundial e outros bancos multilaterais que financiaram o Programa Integrado de Desenvolvimento do Noroeste do Brasil (Polonoroeste) e o asfaltamento da BR 364 de Porto Velho até Rio Branco, por suas políticas socioambientais”, disse Millikan. Cowell filmou com Chico Mendes e contou a história dos seringueiros e sua luta pela criação de reservas extrativistas. Teve um trabalho pioneiro no cinema de sensibilização, de despertar a consciência da sociedade para questões globais, ambientais e sociais. Segundo ele, “Cowell influenciou uma jovem geração de cineastas, tais como André D’Elia e Felipe Milanez, e amplificou a voz das pessoas que vivem nos territórios, tais como indígenas e seringueiros que pedem proteção e justiça ambientais.” 

A professora da UNIR, Elizabeth Kitamura, falou sobre como Rondônia foi registrada na série “A Década da Destruição”, e como o trabalho contribui para uma educação ambiental crítica e emancipadora de volta ao terreno da política. “As imagens de Cowell dão testemunho da história ambiental de Rondônia e da importância do filme documental como prática social”.

A Amazônia registrada pelo Adrian é o “locus” privilegiado da barbárie do agrobanditismo e suas inúmeras facetas, segundo Gustavo Cepolini da Unimontes: “Esses registros revelam a luta por direitos fundamentais que continuam sendo violados e conflitos fundiários onde, sobretudo populações indígenas estão na vanguarda”. Para ele, o trabalho de Cowell mostra a grande aliança Terra/Capital e Meio Ambiente. O legado da obra cinematográfica de Adrian Cowell frente os conflitos territoriais se ancora em quatro dimensões indissociáveis e comprova que seu acervo cinematográfico é o maior sobre a Amazônia. Sua obra ajuda a compreender o contexto histórico dos intensos e atuais conflitos no campo brasileiro com assassinatos documentados pela Comissão Pastoral da Terra, e o papel das políticas públicas territoriais na Amazônia em consonância com os conflitos agrários. Por fim, sua obra contribui como instrumento pedagógico para a educação, pois os documentários são instrumento de pesquisa, linguagem, denúncia e recurso pedagógico e didático para as escolas no Brasil, na Inglaterra e em outros países. 

Em minha participação no debate, lembrei que nesses conflitos documentados, Adrian Cowell sempre esteve do lado dos oprimidos e da justiça. Buscou com seus filmes denunciar, chamar a atenção da sociedade internacional e também documentar para as futuras gerações. No seu trabalho da década de 80 percebemos como fomos roubados pela destruição da Amazônia e como continuamos a construir o país sobre um “cemitério” da formação do Brasil, tal como afirma Ailton Krenak. Cowell documentou o ponto de não retorno da destruição da Amazônia, quando foram estabelecidas as bases da destruição e devastação que ainda seguem em curso. 

O debate foi concluído pelas palavras do sábio líder indígena Ailton Krenak, que conheceu Cowell durante o trabalho da Década da Destruição. Krenak, inicialmente, parabenizou o IGPA da PUC de Goiás pelo acervo, sua capacidade de se engajar na manutenção e cuidado com o acervo e na sua configuração como documento da obra do Adrian. “Este acervo custou muita batalha. Houve todo o tipo de chantagens e ameaças para que perdêssemos este pedaço de nossa história, porque mais do que uma história sobre a ocupação da Amazônia, é a história continuada da ocupação deste país.”

Krenak falou desde a aldeia de seu povo, na região leste de Minas Gerais, à margem esquerda do Rio Doce, que foi ocupada pela lama tóxica de Mariana. “O rio está vivo, porém fora da especulação de terra, de água, de floresta, de minério, de ouro, esta doença encravada na medula dos colonos que vieram para cá.” Profundamente impactados pela mineradora Vale, que Cowell e Vicente Rios documentaram sua chegada e expansão para o estado do Pará.

A trilha sangrenta da ocupação da Amazônia promovida pelo Estado brasileiro implicou na época em grandes contingentes humanos. “Serra Pelada foi produzida e quando construímos Santo Antônio, Jirau e Belo Monte, produzimos nova horda de miseráveis que vai comer o que ainda resta da floresta”, disse Krenak. Para ele, os mais de 20 mil garimpeiros que estão dentro da terra Yanomami são remanescentes destas grandes obras: “Hoje”, diz Krenak, “graças a esses projetos, temos um ventre de produzir pobreza instalada dentro da Amazônia.”

Em uma análise que traça um paralelo de sua região e a Amazônia, ele reflete que, na história do Brasil, “a mineração, que inclui grande contingente de mão de obra, nunca produziu nada socialmente. Se continuarmos a fuçar a terra como uma manada de queixadas, como chamou Davi Kopenawa, vamos terminar no esgoto, com mercúrio e outros dejetos.”

Para Krenak, o encontro de memória sobre o trabalho de Cowell, para contar histórias e saudar aqueles que têm engajamento e que trabalham em defesa da luta ambiental, é uma celebração: “fazemos aqui um Kuarup de Adrian Cowell e de muitos de seus companheiros, amigos dos índios.” Adrian Cowell, lembrou o intelectual indígena, documentou um épico da destruição da Amazônia. “Ele sabia que estava fazendo imagens para o futuro. Ele e Chico Mendes foram pessoas visionárias que atinaram com o desastre que se estava vivendo.”

Neste ano de 2022, um evento ainda maior sobre a obra de Adrian Cowell está sendo organizado. Haverá sessões especiais de seus filmes e debates, com atividades ‘híbridas’ e virtuais. Além de apresentar filmes de Adrian Cowell, também serão exibidos trabalhos recentes e que seguem seu legado e inspiração, através do olhar de outros cineastas, oferecendo uma ponte com questões contemporâneas que revelam a atualidade do trabalho de Cowell. Nestas sessões especiais irão acontecer debates de lideranças indígenas e movimentos sociais, cineastas, cientistas, parlamentares, lideranças políticas e ambientalistas. Os organizadores acreditam que essa mostra possa contribuir para debates públicos da maior relevância, que são especialmente oportunos neste ano eleitoral.  Em breve, serão divulgadas maiores informações sobre a data, programação e plataforma  do evento. 

Informações

Veja a íntegra da mesa realizada no 54o Festival Brasiliense de Cinema Brasileiro (10/12/2020): https://www.youtube.com/watch?v=1e4zdTiggQo

Prévia da programação de nova mostra de Adrian Cowell em 2022: 

  • Abertura e sessão “O Xingu: Povos Indígenas e Geopolítica de Ocupação da Amazônia”
  • “A Mecânica da Floresta: Água, Clima e Biodiversidade “
  • “Conflitos pela Terra”
  • “A Década da Destruição” (foco sobre Rondônia e rodovias no oeste da Amazônia)
  • “Hidrelétricas: Barrando os rios da Amazônia”
  • “Exploração Mineral e Conflitos Socioambientais”  
  • “Defensores da Floresta e o Futuro da Amazônia” /  Encerramento

Comitê organizador da Mostra Adrian Cowell de Cinema Socioambiental: Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia – IGPA/PUC/Goiás  e Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)  <parceiros do Adrian Cowell na produção de filmes e organização de seu acervo no Brasil >  Núcleo de Estudos Amazônicos da Universidade de Brasília (NEAZ/UnB); Universidade Estadual de Montes Claros – UNIMONTES; Universidade Federal de Rondônia (UNIR); Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da Universidade Federal da Bahia (IHAC/UFBA), Instituto Oca do Sol.

Conheça a programação de masterclasses, debates, ambiente de mercado, seminários e painéis setoriais do Festival de Brasília

Além dos filmes, o Festival de Brasília programa masterclasses, seminários e painéis setoriais, atividades voltadas ao mercado, oficinas e os clássicos e acalorados debates, todos realizados na plataforma Zoom sem inscrição prévia (com exceção das oficinas).

As masterclasses gratuitas contam com as presenças ilustres de Ruy Guerra (foto acima), Helena Solberg, Amos Gitai e Costa-Gavras. As atividades de mercado, debatem cinema industrial, games, realidade virtual, circuitos de festivais e as perspectivas do audiovisual para um futuro próximo. Entre os convidados estão Christiane Jatahy, Daniela Thomas, Viviane Ferreira (foto abaixo), Eliane Russi, Pedro Butcher, Maya Da-Rin e Ilda Santiago, responsável pela articulação destas atividades. 

Nos seminários e painéis setoriais, serão debatidas narrativas femininas, periféricas, indígenas e quilombolas, o futuro dos cineclubes, hibridismos no cinema, cinema e educação. Entre outros temas, celebra-se também o centenário do cineasta francês Chris Marker. Fernando Gabeira (foto abaixo), Cibele Amaral, Robert Grelier, Susanna Lira, Vladimir Carvalho e  Paula Saldanha são alguns dos confirmados.

Nos debates, além da oportunidade de reflexão sobre todos os filmes exibidos, realiza-se outra homenagem, agora ao documentarista chinês naturalizado britânico Adrian Cowell. E nas oficinas, com inscrições encerradas em 21 de novembro, os inscritos participam de atividades ferramentais sobre produção colaborativa, games, animação, roteiro, finalização e produção de web-documentários. Entre os convidados estão Kevin MacDonald, Liana Brazil, Cavi Borges, Felipe F. Costa, Adriana Mota e Fabiano, o Silva.

O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro é realizado pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF em parceria com a Associação Amigos do Futuro e apoio do Canal Brasil, InnSaei.TV, Naymovie e CiaRio. 

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